Mavis Tsai apresenta no Artmed Experience 2026São Paulo · 15 a 17 de outubro Saiba mais (abre em uma nova aba)
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Da solidão ao pertencimento

Uma colagem de fotos intitulada 'From Loneliness to Belonging' (Da solidão ao pertencimento) — Mavis Tsai jovem e ainda bebê, um encontro de comunidade on-line e amigos reunidos.

Há experiências que muitos de nós carregamos em silêncio. A solidão é uma delas. Não apenas a ausência de pessoas, mas a sensação de não ser visto. De não ser conhecido. Ou de estar, de algum modo, do lado de fora do lugar ao qual ansiamos pertencer.

Por muito tempo, achei que a solidão fosse algo a esconder. Algo a superar com o tempo. Uma dor íntima que sugeria que todos os outros haviam descoberto o segredo da conexão, enquanto eu, de alguma forma, havia perdido a lição.

Olhando para trás agora, vejo de outra forma. Acho que a solidão foi uma das minhas maiores professoras.

Conhecendo a solidão

Eu era uma criança tímida crescendo em Hong Kong. Caçoavam de mim com frequência. Muitas vezes me sentia sozinha.

Quando minha família imigrou para os Estados Unidos, nos meus doze anos, a solidão se aprofundou. Eu havia deixado para trás pessoas familiares, costumes familiares e a língua que havia moldado minhas primeiras experiências. Eu me vi tentando entender uma nova cultura enquanto ansiava pelo conforto do que eu conhecia.

Houve muitos momentos em que me senti como se estivesse do lado de fora do círculo do pertencimento, olhando para dentro.

O mandarim foi minha primeira língua. Mas, nos meus primeiros anos, eu era mais fluente na língua da solidão. Conhecia a dor de querer ser compreendida.

O anseio de sentir que a minha presença importava. A incerteza de não saber bem como atravessar a distância entre mim e os outros.

Na época, eu não tinha palavras para o que estava vivendo.

Eu simplesmente conhecia o sentimento.

A solidão como anseio

Com o tempo, algo mudou. Comecei a entender que a solidão não era apenas dor. Era também anseio.

Um anseio de ser vista. De ser compreendida. De ser conhecida. De me sentir conectada. De importar.

À primeira vista, a solidão pode parecer uma inimiga — algo a eliminar o mais rápido possível. Mas e se a solidão também for uma mensageira?

E se ela nos lembrar de que a conexão importa? De que nunca fomos feitos para navegar a vida sozinhos?

De que o nosso desejo de pertencer reflete algo profundamente humano, e não uma deficiência dentro de nós?

Não quero romantizar a solidão. Ela pode ser profundamente dolorosa. Pode estreitar nossos mundos e nos convencer de que estender a mão não vale o risco.

Mas talvez, escondida dentro da solidão, esteja a evidência da nossa capacidade de amar. Porque não podemos ansiar por aquilo que não tem valor para nós.

E a solidão revela o imenso valor que damos à conexão.

Os dons escondidos na sensibilidade

Por muitos anos, desejei ser menos sensível. Menos tímida. Menos afetada pela exclusão.

Menos atenta às maneiras sutis como as pessoas se aproximam e se afastam umas das outras. Eu imaginava que a vida seria mais fácil se eu precisasse menos das pessoas.

Mas fui entendendo que a mesma sensibilidade que tornava a solidão dolorosa também me permitia notar os pequenos momentos que ajudam as pessoas a se sentirem vistas e valorizadas.

Um olhar caloroso. Uma pergunta sincera. Um gesto de apreço. A disposição de permanecer presente diante da vulnerabilidade de outra pessoa.

Com o tempo, meu anseio por conexão moldou a direção da minha vida. Esse anseio me levou a estudar as relações humanas. A fazer outros tipos de pergunta. A prestar mais atenção.

Por fim, contribuiu para o meu trabalho na cocriação da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP, na sigla em inglês) e, mais tarde, do Projeto Global Awareness, Courage & Love™ — consciência, coragem e amor —, esforços enraizados na crença de que a conexão humana autêntica pode transformar vidas.

Não acho que escolhi este trabalho apesar das minhas experiências de solidão. Acho que, em muitos sentidos, eu o escolhi por causa delas.

O pertencimento é vivido

Uma das coisas que aprendi a apreciar é que o pertencimento não é um destino permanente. Não é algo que conquistamos uma vez e possuímos para sempre.

Mesmo pessoas profundamente amadas podem sentir solidão. Mesmo dentro de uma comunidade, há momentos em que nos sentimos incompreendidos ou invisíveis.

O pertencimento é menos um status que alcançamos e mais uma experiência que cultivamos. Momento a momento. Conversa a conversa.

Atos de coragem ajudam a criar esse pertencimento. Assim como a curiosidade. Assim como o apreço. E também nos permitirmos ser conhecidos de forma um pouco mais honesta.

Descobri pertencimento em lugares inesperados: no riso compartilhado. Em conversas em que alguém arrisca dizer: “Eu também.” Em momentos em que percebo que outra pessoa entende algo que eu supunha carregar sozinha.

Essas experiências não apagam a solidão. Mas me lembram de que a solidão não é a história inteira.

Algumas perguntas para refletir

Se fizer sentido para você, talvez queira se demorar nestas perguntas:

  • Qual é a sua primeira lembrança de ter se sentido só?
  • Como você aprendeu a se proteger desse sentimento?
  • Em que momentos — no passado ou no presente — você experimentou um senso de pertencimento, ainda que por um instante?
  • O que ajuda você, hoje, a se sentir visto, compreendido ou conectado?
  • Que pequeno passo em direção à conexão pareceria possível hoje?

Não há necessidade de responder a todas de uma vez. Às vezes, simplesmente perceber o que surge já é suficiente.

Uma relação diferente com a solidão

Se a solidão às vezes visita você, talvez você possa recebê-la com curiosidade. Pelo que esse sentimento anseia?

Às vezes, a resposta é companhia. Às vezes, é descanso. Às vezes, é autenticidade. Às vezes, é a coragem de estender a mão.

Às vezes, é lembrar que você pertence a si mesmo antes de pertencer a qualquer outro lugar.

A solidão é um lembrete de algo precioso. De que a conexão importa. De que o amor importa. De que ser conhecido importa.

De que nossas vidas estão entrelaçadas de maneiras visíveis e invisíveis.

Da solidão ao pertencimento

Não acredito que o objetivo seja eliminar a solidão por completo. Ser humano é viver momentos de separação, anseio e incerteza.

Talvez o convite seja mais gentil do que isso. Responder à solidão com curiosidade em vez de vergonha. Honrar o anseio que existe por baixo dela. Arriscar ir ao encontro uns dos outros.

Criar espaços onde as pessoas se sintam vistas, conhecidas e valorizadas.

A sensibilidade que um dia nos tornou vulneráveis à solidão pode também se tornar a nossa maior capacidade de conexão.

E talvez o pertencimento não seja algo que precisamos conquistar. Talvez seja algo que vivemos — momento a momento, juntos.

Uma reflexão final

Ao atravessar os próximos dias, se isso ressoar em você, talvez possa se perguntar: o que a solidão lhe ensinou sobre o que mais importa? E como honrar esse anseio pode ajudar você a dar um pequeno passo em direção ao pertencimento?

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