Um começo diferente
Todo mês de janeiro, percebo a mesma energia familiar no ar. As pessoas começam a fazer listas.
Fazer mais exercício. Comer melhor. Trabalhar menos. Ser mais produtivas. Encontrar o amor. Se organizar. Meditar. Finalmente escrever o livro.
Tornar-se a pessoa que sempre quiseram ser.
Eu mesma já participei desse ritual. Há algo profundamente humano no desejo de fazer uma pausa no limiar de um novo ano e perguntar: Como eu quero viver?
Na sua melhor forma, esse impulso não é sobre autoaperfeiçoamento. É sobre esperança. E, no entanto, também tenho notado com que rapidez a esperança pode se transformar em autojulgamento.
Em fevereiro, muitos de nós concluímos que fracassamos. A rotina de exercícios desanda. O aplicativo de meditação continua sem ser aberto. Nossos planos ambiciosos esbarram nas realidades da vida comum.
Sem perceber, podemos começar a contar a nós mesmos uma história dolorosa: Eu não tenho disciplina. Eu nunca levo nada até o fim. Por que eu não consigo dar conta?
Mas, ao longo dos anos, comecei a me perguntar se não estamos fazendo a pergunta errada. Talvez a pergunta não seja: Que metas devo alcançar este ano?
Talvez a pergunta seja: Pelo que eu realmente anseio?
Por trás da meta
Uma amiga certa vez me contou que sua resolução de Ano-Novo era fazer exercício cinco dias por semana. Quando perguntei o que ela esperava que o exercício lhe trouxesse, ela fez uma pausa. Depois disse: “Quero me sentir viva de novo.”
Outra pessoa queria uma promoção. Por trás dessa meta havia o anseio de contribuir de forma mais plena e de saber que seus esforços importavam.
Outra, ainda, esperava encontrar um parceiro romântico. Por trás desse anseio estava o desejo de se sentir vista, querida e conhecida.
Muitas vezes, nossas metas são substitutas. Perseguimos a conquista externa enquanto perdemos contato com a experiência mais profunda que esperamos que ela traga.
A meta em si pode não ser o destino final. Talvez o que estejamos realmente buscando seja:
- vitalidade,
- pertencimento,
- paz,
- sentido,
- confiança,
- contribuição,
- alegria,
- conexão,
- autenticidade.
A ironia é que muitas dessas experiências não estão nos esperando em algum lugar do futuro. Pelo menos não inteiramente.
A maioria delas pode ser cultivada agora.
A vida que já está aqui
Eu entendo o apelo de adiar. Sei como é pensar:
Quando este projeto terminar… Quando o mundo parecer menos incerto… Quando eu perder peso…
Quando eu tiver mais tempo… Aí, sim, vou começar a viver do jeito que quero viver.
Muitos de nós aprendemos bons motivos para adiar.
Para nos preparar. Para nos proteger da decepção. Para esperar até que as condições pareçam mais seguras ou mais certas.
E, no entanto, a vida tem um jeito de nos lembrar que a certeza nunca é garantida. Este momento — o que estamos vivendo agora — não é um ensaio.
Se anseio por conexão, como posso praticar conexão hoje?
Se anseio por paz, que pequeno gesto de gentileza comigo mesma está disponível agora?
Se anseio por contribuir, onde posso oferecer meus dons, ainda que de forma imperfeita?
Se anseio por me sentir mais plenamente viva, o que desperta maravilhamento em mim neste exato momento?
Essas perguntas não eliminam a importância das metas. Mas mudam a nossa relação com elas. Em vez de perseguir sentimentos que imaginamos existir do outro lado da conquista, começamos a aprender a viver essas qualidades, fazendo-as existir.
Momento a momento. Escolha por escolha.
Escutar mais profundamente
Às vezes penso nesse processo menos como reinvenção e mais como um ato de lembrar.
Lembrar o que importa.
Lembrar quem somos por baixo do ruído das expectativas.
Lembrar que o nosso valor não se conquista por meio da produtividade.
Lembrar que nossos valores mais profundos costumam falar baixinho.
Escutar exige um tipo diferente de coragem. Exige que paremos por tempo suficiente para perceber:
O que eu desejo tanto que chega a doer?
O que sinto que é verdadeiro?
A voz de quem estou seguindo?
O que venho adiando por acreditar que primeiro preciso me tornar outra pessoa?
As respostas nem sempre são óbvias. Às vezes, emergem devagar. Às vezes, nos surpreendem. E, às vezes, convidam a mudanças que nunca planejamos fazer.
Algumas perguntas para o novo ano
Se isso lhe fizer bem, talvez queira se demorar em uma ou duas destas perguntas:
- O que eu genuinamente desejo sentir este ano?
- Quais das minhas metas apontam para algo mais profundo?
- Como eu poderia começar a cultivar essas experiências agora?
- O que importa tanto para mim a ponto de eu querer orientar minha vida em torno disso?
- O que mudaria se eu me tratasse com curiosidade em vez de crítica?
Não há necessidade de responder a todas de uma vez. Às vezes, o simples ato de fazer a pergunta já nos transforma.
Um começo diferente
Já não penso que o início de um novo ano nos peça para nos tornarmos pessoas completamente diferentes. Talvez ele peça algo ao mesmo tempo mais simples e mais difícil.
Escutar.
Confiar na sabedoria que existe por baixo do nosso esforço.
Perceber o que realmente importa.
Trazer um pouco mais de consciência para as maneiras como nos movemos pelo mundo.
Escolher a coragem quando a autenticidade parecer arriscada.
Oferecer a nós mesmos a mesma gentileza que estendemos a quem amamos.
O ano que vem pela frente quase certamente incluirá alegria e decepção, clareza e incerteza, começos e términos. Nenhum de nós pode prever o que ele vai nos pedir.
Mas talvez possamos escolher como vamos ao encontro dele. Não nos esforçando mais para nos tornarmos alguém digno desta vida. Mas habitando esta vida mais plenamente.
E talvez esse seja o começo mais significativo de todos.
Uma reflexão final
Ao entrar neste novo ciclo, eu me pergunto: e se a pessoa que você precisa se tornar não for alguém novo? E se este ano estiver convidando você a escutar mais profundamente a pessoa que você sempre foi?